Desde os primeiros anos de vida de sua filha Clarissa, a tecnologia foi uma preocupação para Dinorá Dias. Não acreditava que os computadores, tablets, celulares, ou mesmo a internet fossem vilões, longe disso. Enquanto professora, sempre esteve atenta à potência desses meios em possibilitar um acesso abrangente ao conhecimento, à descoberta de mundos e realidades além da própria bolha. Contudo, também não partilhava da ingenuidade de que o universo virtual é livre de perigos, um ambiente seguro, ainda mais quando se trata de crianças e adolescentes.
“Quando ela [Clarissa] estava com três, quatro anos, já tinha colegas que tinham tablet. […] Aí eu dizia assim, não, ela só vai ter quando aprender a ler”. Antes que a filha tivesse acesso à internet, jogos, redes sociais e outros aplicativos digitais, Dinorá incentivou a leitura e priorizou o contato e amizade entre Clarissa e os livros. Além disso, brincar longe das telas era parte fundamental da rotina da filha. De brinquedos de montar à pintura com lápis de cor, giz de cera e tinta: tudo que desse espaço para a imaginação ganhar asas e auxiliar no desenvolvimento.
A opção de inserir cautelosamente o mundo virtual na vida da filha também surgiu do entendimento de que, primeiro, ela deveria compreender, pelo menos em parte, o que aquilo significava. Por mais que todos os colegas de escola tivessem celular com acesso a WhatsApp, Instagram ou Facebook, Dinorá evocava a boa e velha máxima, exaustivamente repetida por muitos pais: você não é todo mundo. “Eu protelei até quando foi possível”, conta. Até que chegou o momento inevitável e a filha precisou se aproximar do universo digital.

Nesse período, algo que Dinorá não abriu mão, foi de monitorar de perto o modo como Clarissa se relacionaria, principalmente, com as redes sociais. “É porque eu não confio na minha filha? Não! É porque eu não confio no mundo que ela está inserida”. Hoje, a professora percebe que o tempo que levou para permitir que sua filha tivesse liberdade de acessar aparelhos digitais e – em especial – às redes sociais foi uma decisão acertada. Clarissa cresceu entendendo, sobretudo, que a internet pode ser espaço de descoberta, mas que seu mundo, suas vivências e realidade, não se restringe a uma tela.
No entanto, enquanto professora de uma escola de ensino médio, Dinorá percebe que o cenário envolvendo adolescentes e internet é cada vez mais preocupante. “A paciência até para ouvir o professor, para escutar um colega, tudo isso diminui e tudo isso vai impactar no rendimento”, conta. Todos os atrativos da internet, e consequentemente das redes sociais, estabelecem uma competição desleal com o professor: na tela as informações chegam de forma fácil, sem precisar de esforço; a vida parece mais colorida; mais animada; as pessoas são mais legais; tudo é mais interessante do que qualquer aula.
Mesmo com a restrição do uso de celulares e aparelhos digitais nas escolas brasileiras – determinação que faz parte da Lei Federal nº 15.100, sancionada em janeiro deste ano –, é impossível ignorar os efeitos e as marcas que a vida online deixa, mesmo nos momentos em que o status é offline. Ainda assim, Dinorá sentiu que o distanciamento trouxe impactos positivos, como o aumento da procura por livros e jogos nos intervalos; a interação entre os alunos e a participação nas aulas são alguns dos resultados.
Por outro lado, observando o cenário de forma ampla, a conta não fecha, a balança ainda pende para o lado dos malefícios presentes no mundo virtual. “O que eu percebo é que os nossos adolescentes e crianças, eles têm usufruído pouquíssimo dos benefícios. […] É um número muito pequeno de pessoas, principalmente adolescentes, que fazem uso da tecnologia realmente como um ganho”, avalia.
Hiperconectados
O número de usuários de internet e exposição às telas cresceu nos últimos anos no Brasil. É o que aponta o Relatório Digital 2024, documento elaborado pelo site Data Reportar. Segundo os dados, o brasileiro passa, em média, 9 horas e 32 minutos conectado, diariamente. Dado que coloca o país como segundo maior com tempo de tela, ficando atrás apenas da África do Sul.
O Brasil também é destaque no número de usuários de redes sociais. De acordo com os dados, o brasileiro acessa cerca de 8,4 plataformas diferentes, com uma média de 4 horas do dia dedicadas a essas redes.
Já em Janeiro de 2025, o relatório mostra que, até aquele momento, existiam cerca de 183 milhões de usuários de internet no país, um aumento de 22 mil, em relação ao mesmo período de 2024.
A pesquisa TIC KIDS ONLINE BRASIL 2024, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostra como é a relação da população brasileira de 9 a 17 anos com a internet e como essa população enfrenta os riscos decorrentes desse uso. A pesquisa foi realizada com entrevistas de 2.424 crianças e adolescentes e 2.424 pais ou responsáveis, entre os meses de março e agosto de 2024 em todo o país.

De acordo com os dados, 93% da população brasileira de 9 a 17 anos são usuárias de internet. O maior número de conectados está na região Sul, com 98% da população; seguido da região Sudeste e Nordeste, ambas com 93% dessa população usuária de internet; Centro Oeste, com 88%; e Norte com 85%. A pesquisa também revela que o maior índice de conectados são de adolescentes de 15 a 17 anos.
O relatório também destaca os riscos que crianças e adolescentes estão expostos na internet. Segundo os dados, 29% das crianças e adolescentes entrevistados relataram ter passado por situações em que sofreram ofensas no ambiente online. 30% deles também afirmaram ter tido contatos com pessoas desconhecidas em redes sociais, aplicativos de mensagens instantâneas e sites de jogos.

Em Poções, o Conselho Tutelar informou que não é recorrente as denúncias de crimes cibernéticos envolvendo crianças e adolescentes, mas não é ausente. Dados do último semestre registrou ocorrência de um caso de abuso sexual no aplicativo WhatsApp, envolvendo adolescente. No entanto, essa ausência de casos pode estar relacionada com a falta de denúncias às autoridades por “falta de acesso à informação que de fato configura uma violação de direito, ou até mesmo um crime”, principalmente ligados ao ambiente virtual.
Como o uso excessivo de telas pode afetar o comportamento de crianças e jovens?
Estudiosos e profissionais alertam que essa exposição constante às telas pode gerar danos e impactos na vida do público infanto-juvenil. Um desses danos, são os crimes virtuais contra crianças e adolescentes que têm se tornado cada vez mais frequentes e abrangem diferentes formas de violência e violação de direitos na internet.
A advogada e especialista em proteção de dados e redes sociais, Tiana Ferraz, explica que o que caracteriza um crime virtual é o meio em que ele ocorre, ou seja, o ambiente online. “Existem inúmeros crimes que acontecem no mundo offline e também acabaram sendo projetados, digamos assim, transferidos para o mundo virtual. Podemos apontar, por exemplo, o cyberbullying, a pedofilia, é talvez até a sextorsão,” aponta.
Além dos riscos que as crianças e adolescentes estão expostas por estar conectados, existem também os perigos que os pais e mães expõem seus filhos ao compartilharem imagens e informações destes na internet. “Temos que pensar que quando uma coisa chega na internet, um fato, um dado, não temos como controlar por onde essa foto, esse dado, essa coisa, ela vai circular. […] E quando nós falamos de crianças e adolescentes, a proteção tem que ser ainda maior, porque nós estamos falando de pessoas que estão na situação de formação e isso pode impactar não só nessa formação do caráter, mas também temos que lembrar das questões emocionais e psíquicas que estão por trás disso tudo,” ressalta Tiana Ferraz.

A neuropsicopedagoga Jucineide Rocha Almeida explica que viver em redes afeta o desenvolvimento das crianças, principalmente nos primeiros anos, visto que o recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria é que as crianças não tenham acesso às telas até os três anos. “Se essa criança está nesse processo de desenvolvimento e ela fica o tempo todo em um desenho repetitivo, ela vai ficar repetindo também, então isso vai trazer prejuízos cognitivos. Essa criança terá atraso na linguagem, atraso na coordenação motora, porque fica ali o tempo todo sentado, só assistindo”.
O contato com telas para crianças menores de três anos aumenta a dopamina, o que faz com que a criança fique viciada, como explica a neuropsicopedagoga. “Ela fica o tempo todo no celular, porque aumenta a dopamina, e ela tem um prazer naquilo. Quando isso ocorre, a criança fica super estimulada, pois a dopamina estimula, ela é um neurotransmissor que inibe e ela excita o cérebro, isso vai prejudicar, e quando ter as demandas para ela fazer, ou até quando ela for inserida na escola, ela não vai querer sentar para fazer aquelas atividades”.
Para os adolescentes, passar muito tempo conectados também gera consequências graves para a saúde mental e física. A neuropsicopedagoga adverte que “o uso das redes sociais pode contribuir para o aumento de ansiedade, depressão e baixa autoestima”. Além disso, a hiper conexão pode colaborar para o baixo desempenho acadêmico do estudante. “Um adolescente que fica até três horas da manhã assistindo filme, no período dele dormir – porque o sono que faz as memórias do aprendizado – o impacto disso é o prejuízo cognitivo para a concentração e memorização”.

Outro problema recorrente é que muitos adolescentes não conseguem lidar com as frustrações decorrentes de comparações com a vida “perfeita” vendida nas redes. “Quando ele não consegue, há frustração, a baixa estima, porque ele queria aquilo, mas não pode. Aí muitos se isolam,” explica Jucineide.
Prevenção e cuidados com crianças e adolescentes em ambientes online
Os índices de exposição às telas e os perigos decorrentes disso têm acendido o alerta para medidas que podem e devem ser tomadas visando à proteção do público infanto-juvenil. Os representantes do Conselho Tutelar, enquanto órgão responsável pela proteção de crianças e adolescentes, alertam para o dever que os pais e responsáveis têm com a educação dos filhos, e essa educação inclui o limite ou restrição ao uso de telas a depender da idade dos filhos.
“O avanço da tecnologia foi positivo, mas também teve pontos negativos. E um dos pontos negativos é que a família está deixando de assumir o seu papel e deixando que a rede social faça o papel de família. Muitas vezes, o pai, por não ter um diálogo familiar com a esposa, com os filhos, e deixa os filhos um pouco soltos nas redes sociais. E essas plataformas estão gerando na criança uma mentalidade daquilo que ela pode ser,” afirma Marcus Nunes, conselheiro tutelar.

Os conselheiros ressaltam a importância de pais e responsáveis estejam atentos aos comportamentos dos filhos e às reclamações vindas de escolas, relacionadas a essas mudanças comportamentais. “Tem muitas crianças e adolescentes que estão tendo problemas com a rede social, com o assédio, com a exploração, sendo vítimas de crimes. Muitas delas não conseguem se abrir, então, elas começam a ter sinais de automutilação, a se cortar. Muitas fazem o sinal de desaparecer da cidade, dar um sumiço, e muitas vezes não é caso de namoradinho, são problemas que não estão conseguindo resolver e não tem o apoio familiar,” diz o conselheiro.
Marcus Nunes acrescenta que o Conselho Tutelar existe para assegurar os direitos às crianças e adolescentes, no entanto, as regras e os limites devem ser dados pelos pais e/ou responsáveis. “O Conselho Tutelar não é um órgão repressor, tampouco punitivo. Ele é um órgão protetivo, que não tira a autonomia do pai e da mãe”.
Além de estarem atentos às mudanças comportamentais, pais e responsáveis devem sempre verificar se os filhos, ou menores sob sua responsabilidade, estão sendo vítimas de algum crime online e procurar ajuda. “A primeira coisa a se fazer é buscar uma autoridade policial. Hoje, nós já temos uma delegacia de crimes virtuais, em que pode ser feito um Boletim de Ocorrência para relatar essa circunstância. Ou pode se dirigir à delegacia física para prestar esse boletim. Também é importante que os pais eles se aconselhem, busquem uma orientação jurídica de como proceder. E também podem buscar auxílio do Conselho Tutelar e do Ministério Público,” explica Tiana Ferraz.
O Conselho Tutelar não faz a prática investigativa e nem punitiva, no entanto, o órgão atua na proteção da vítima. “Quando o pai chega aqui para pegar orientação, fazemos um encaminhamento daquela vítima para um acompanhamento psicológico, assistente social, vemos o que é o problema para saber onde vamos encaminhar para proteção. E a parte crime a gente direciona o pai ou o responsável a registrar o Boletim de Ocorrência”, afirma Gabriela Godeiro.
As denúncias de crimes virtuais podem ser feitas na Delegacia Virtual, ou diretamente na Delegacia de Polícia Civil. A advogada orienta algumas ações que podem auxiliar na hora de fazer a denúncia. “A primeira coisa é tirar print, o que puder tirar print e salvar. Se a pessoa tiver algum nível de entendimento, ela pode se valer do registro dessas ocorrências informáticas em sites de armazenamento de provas, como Very Fact, porque nem sempre a pessoa vai ter disponibilidade financeira para fazer uma ata notarial. O ideal é uma ata notarial, porque a pessoa que fizer o registro desta ata notarial, ela tem fé pública e aí sim, a circunstância ela vai estar muito bem resguardada”, aconselha.