Um elo mais forte que o tempo: Us Boca Muxa e a amizade que atravessa décadas

Com amizade que já dura mais de 20 anos, grupo de amigos se reencontram para abrir cápsula e celebrar laços.
Por Leila Costa e Nataly Leoni
Publicado em 05/08/2025
Foto: Nataly Leoni

A escritora Clarice Lispector, no livro A legião Estrangeira, diz que “amizade é matéria de salvação”. A frase faz parte do conto Uma amizade sincera, no qual a autora aborda as sutilezas de uma amizade e os desafios enfrentados para a manutenção dos laços. Entre esses desafios, está o distanciamento, um obstáculo comum para a permanência do ciclo de amigos na vida adulta, em que cada indivíduo segue caminhos diferentes. 

Para os amigos do grupo “Us Boca Muxa”, o distanciamento é sim um obstáculo enfrentado. Mas há duas décadas, eles buscam maneiras e reinventam caminhos para reunir a galera. O grupo, que já chega a umas 50 pessoas, com convidados e agregados, começou a amizade por volta do ano de 2003, quando participaram da Gincana Bíblica que envolviam pessoas dos bairros Primavera, Lagoa Grande e Bela Vista. “Foi numa experiência tão boa que a gente continuou a amizade sempre se encontrando, no ano seguinte teve outra gincana bíblica e a gente continuou a mesma equipe”, conta Samara Campos, economista, assessora parlamentar e integrante do grupo desde o princípio.

Desde aquele segundo ano juntos, a amizade do grupo cresceu e a necessidade de novos encontros também. Tudo era motivo para encontros, aniversários, festinhas e praças se transformavam em pontos de encontro. Logo depois eles criaram uma data fixa para os encontros. Todo dia primeiro de janeiro, os amigos se reuniram para um almoço especial na casa de um dos componentes do grupo. “Essa data ficou muito marcante principalmente para mim,  a questão do dia 1º a gente abria o ano com esse ciclo de amizade, e isso veio por vários anos,” explica João Dias, integrante do grupo.

Para João Dias, esses encontros sempre foram  momentos de muita diversão, trocas e de leveza. Além dos almoços, aniversários, os amigos também arrumam tempo para jogar dominó, fazer uma violada, bingos, fazer pizzas e viagens para acampar. Outro ponto de encontro eram os jogos das Copas do Mundo que sempre assistiam em grupo.

A leveza da amizade, o tempo que ela já se prolongava e o afeto adquirido ao longo dos dias que passavam juntos, também dava a liberdade para resenhas e apelidos. E foi devido a um desses apelidos que surgiu o nome do grupo: “Us Boca Muxa”.

“Tínhamos esse costume de ficar colocando apelido em nós mesmos e nos outros. E boca murcha pra lá, boca murcha pra cá. Marcos Nunes ficava com esse negócio de boca murcha e pegou para geral.  A gente se apropriou disso de tal forma que se tornou um símbolo nosso. Talvez se as pessoas de fora ouvissem a gente chamando soava até um pouco estranho, mas para a gente não. Era uma forma carinhosa. Uma forma respeitosa”, explica João Dias. 

Samara Campos conta que chamar o colega de boca murcha virou uma forma de cumprimento. “O outro lá há 100 metros de distância gritava ‘boca murcha’. E o outro que respondia ‘fala boca mucha’”. 

A amizade durante a pandemia

Durante a pandemia da Covid19 – com início em março de 2020 e fim, decretado pela OMS, em 03 de maio de 2023 – as relações pessoais precisaram ser mudadas devido a isolamentos e precauções para conter o vírus. Os trabalhos aconteciam em home office, as aulas em ensino remoto e as relações de amizade foram adaptadas também para o ambiente online. 

Com os amigos do grupo Us Boca Muxa, as relações também tiveram que ser adaptadas. Os tradicionais encontros foram suspensos e as conversas ficaram restritas ao grupo de WhatsApp. Daiane Teles conta que esse grupo já existia, mas durante o isolamento ele foi o ponto de encontro dos amigos. “Então esse grupo de WhatsApp foi o nosso elo, durante um período ele até ficava parado, mas voltava, aparecia uma conversa é voltava. Ele se tornou um elo mais forte que o tempo”.

O encontro e a cápsula do tempo

Em 2015, os amigos enterraram uma cápsula do tempo com cartas e mensagens para o futuro. No dia 20 de julho, dia do amigo no Brasil, e também no tempo em que eles completam 20 anos de amizade, chegou o momento de abrir a cápsula do tempo e revisitar o passado. No entanto, a maioria das lembranças guardadas em cartas que seriam lidas durante o encontro acabaram se perdendo por conta da umidade do solo onde o pote ficou enterrado ao longo dos anos. Mas isso não impediu a reunião do grupo. Pelo contrário, foi justamente pensando em manter os encontros e transformá-los em tradição, agora também com os filhos, que Us Boca Muxa enterraram uma nova urna com cartas, textos e desenhos. Neles, cada um escreveu sobre sentimentos, desejos e sonhos que serão lidos daqui a 10 anos, quando a cápsula do tempo for reaberta. Esse gesto fez com que o último encontro se tornasse ainda mais especial.  “Com fé em Deus se a gente estiver vivo daqui pra lá, é claro, a gente vai estar assim, relembrando esses momentos e essa amizade aqui”, afirma Andinho Santos.

O encontro, que aconteceu em um sítio próximo à cidade, reuniu o grupo de amigos, agora acompanhados de filhos, familiares e agregados que também passaram a fazer parte dessa história. Alguns ainda vivem no mesmo lugar; outros vieram de longe apenas para participar do encontro e cada integrante ficou encarregado de preparar um prato para compor o almoço coletivo que recheou a mesa. Na decoração, as paredes da casa encheram-se de fotos refletindo duas décadas de amizade, registradas em diferentes ocasiões e encontros. Já a trilha sonora ficou por conta do professor e DJ Marcelo Terron, que também integra o grupo.

Logo na entrada da casa, via-se uma cama-elástica, uma piscina de bolinhas e um escorregador. Em um canto, os sapatinhos infantis deixados de lado indicavam que a presença das crianças, e marcava uma nova etapa do grupo. A amizade que começou entre adolescentes e jovens adultos agora se estende também a seus filhos, que brincam juntos, mesmo sendo, para muitos deles, a primeira vez que se encontram. “A gente teve o cuidado de proporcionar algo que as crianças também pudessem participar”, conta Samara Campos. 

De acordo com ela, as crianças, até mesmo as menores, têm cartas ou desenhos na próxima cápsula, cada uma do seu próprio jeito. “Daqui a 10 anos é fantástico você voltar no tempo quando estava escrevendo. Quase todo mundo já teve filho aqui, é como se fosse uma nova geração da galera, quem sabe eles dão segmento quando a gente não estiver mais aqui, ou não estiver aguentando mais”, afirma Samara. “Quem sabe daqui a uns 20, 30 anos, eles que nos convidam para estar todo mundo no encontro. Seria para nós, o maior orgulho,” acrescenta João Dias, com os olhos refletindo a esperança da continuidade dessa história, enquanto olhava para as crianças brincando, entre elas, sua filha.

A responsável por organizar o encontro foi Daiane Teles. Para ela, essa tarefa foi desafiadora, porém, algo que a ajudou no processo de luto pelo qual vem passando há mais de um ano. “Veio em um momento muito propício […], foi muito importante para que eu pudesse me reencontrar também”, conta. A organização do encontro se estendeu por semanas, Daiane se dividiu entre animar as pessoas, procurar integrantes que não participavam mais do grupo de mensagens, organizar a confecção de camisas e a programação do encontro.   

“Saber que apesar do meu processo de luto, todos nós estamos aqui, estamos vivos e podemos participar desse momento é muito importante para nós. Volta e meia alguém do grupo comentava como seria esse momento se alguém não estivesse presente daquela galera de 10 anos atrás, mas todo mundo está aqui. Não foi fácil, foi extremamente cansativo, mas eu consegui o inacreditável, consegui colocar 50 pessoas aqui!”, explica Daiane Teles. 

A nova cápsula do tempo foi enterrada no último sábado (02/08) e a ideia e que, com esse gesto, eles reforcem o compromisso de que em 10 anos todos estejam reunidos novamente para abri-la e reler as cartas, e também de que mantenham o contato e se encontrem com mais frequência daqui para frente. “É importante fortalecer os vínculos, vivemos de uma maneira muito melhor e muito mais prazerosa quando a gente divide com o outro, seja as alegrias, seja as angústias. Pra mim, isso aqui tem um valor que eu não consigo mensurar”, afirma Samara Campos. Para Deny Santos, ter um vínculo como este é “um remédio para a alma”.

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