Para quem convive com animais, a morte de um cão ou gato por envenenamento não termina quando o animal é encontrado. Em Poções, relatos de animais mortos por suspeita de envenenamento continuam se repetindo. E, embora nem todos os casos tenham confirmação por exames laboratoriais, o chamado “chumbinho” aparece com frequência nas suspeitas dos moradores.
O problema, porém, vai além da morte dos animais. O produto é clandestino, não possui registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e não deve ser utilizado ou comercializado. Segundo a agência, o chamado chumbinho costuma ser formado por agrotóxicos desviados ilegalmente de seu uso original e vendidos de maneira irregular como raticida. A compra e a venda do produto são crime, mesmo assim o veneno continua chegando às mãos de consumidores.
“A gente não denuncia porque nos sentimos impotentes”
Dolores dos Santos, conhecida por muitos como Branca, convive há anos com animais em casa e já chegou a ter cerca de 50 gatos ao mesmo tempo, mas ao longo desse período, também acumulou perdas.
“Eu gosto muito de animal. Eu tenho amor por eles, eu cuido, dou comida, levo para vacinar, para castrar. A gente acaba se apegando, porque são vidas que estão ali dependendo da gente”, relata.
Segundo ela, vários dos animais morreram em situações que ela atribui a envenenamento. Um dos casos mais recentes, ocorreu em agosto deste ano, em que encontrou um dos seus gatos agonizando dentro de sua casa.
“É muito triste você cuidar, você criar, ter aquele carinho pelo animal e, de repente, encontrar ele morto. A gente fica sem saber o que fazer, porque parece que não tem como lutar contra isso”, conta.


Branca tem enfrentado anos de sofrimento lidando com o envenenamento dos seus animais, ciente de quem possa estar por trás do crime, mas sem denunciar por medo de represália. No início do ano, chegou a encontrar sete dos seus gatos mortos por envenamento, e agora já na primeira semana de setembro já foram mais quatro registros. Ela também afirma ter conhecimento de outros moradores que passam por situações semelhantes.
Uma das dificuldades para dimensionar o problema na cidade está justamente na falta de registros oficiais. Segundo o delegado da Polícia Civil Marcus Vinicius, até o momento, o município recebeu apenas três denúncias de maus-tratos contra animais em 2026, sendo apenas uma de envenamento.
Isso não significa que não existam outros casos. Para o delegado, situações envolvendo envenenamento de animais domésticos acontecem, mas não chegam formalmente à polícia. E é justamente essa ausência que faz com que os números não apareçam nos registros oficiais, e que dificulta entender a real dimensão do problema.
“O mais importante é denunciar. A partir da denúncia, a Polícia consegue tomar conhecimento do caso e adotar as medidas necessárias para investigar. Em uma suspeita de envenenamento, é importante que o animal seja encaminhado para perícia, com um laudo veterinário que possa apontar a causa da morte.”, explica o delegado Marcus Vinicius.
A ausência de denúncias cria um ciclo onde os casos acontecem, os responsáveis não são identificados e as autoridades não conseguem construir uma dimensão real do problema ou investigar possíveis recorrências. A lei nº 14.064 (09/2026) considera crime praticar abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais domésticos. Quando a vítima é um cão ou gato, a pena prevista é de dois a cinco anos de reclusão, multa e proibição da guarda. Se houver morte do animal, a pena pode ser aumentada de um sexto a um terço.
Em Poções, ainda não é possível afirmar quantos animais foram mortos por envenenamento. Não há, segundo as informações levantadas para esta reportagem, um levantamento oficial que contabilize essas ocorrências. Mas os relatos apontam para um problema que aparece repetidamente entre moradores, protetores e pessoas que convivem com animais, tendo gatos como principal alvo e isso acaba ficando de fora das estatísticas.
Maria Sandra também convive com a dor de perder seus gatos por evenenamento, com a suspeita de quem possa cometer o crime, mas sem sequer saber como denunciar.
“Eu já tive vários animais envenenados, gatos, mas nunca denunciei nenhum por conta que na minha cidade não conheço nenhum órgão onde a gente possa fazer essa denúncia”, relata.


A falta de informação acaba contribuindo para o silêncio em torno dos casos, o que reforça a contradição de um veneno que sequer deveria estar em circulação, sendo usado para matar vários animais, enquanto os órgãos competentes não recebem esses casos.
Fiscalização esbarra na venda clandestina
Quando se trata de envenenamento de animais domésticos, a dificuldade não está apenas em descobrir quem colocou o veneno no ambiente para atingi-lo, mas também em encontrar quem comercializa o produto.
A coordenadora da Vigilância Sanitária de Poções, Graziela Freire, explica que as denúncias são fundamentais para direcionar as ações de fiscalização. A localização dos casos ajuda o órgão a identificar regiões onde pode haver maior circulação do produto e a definir os locais que precisam ser vistoriados.
Segundo Graziela, a equipe também procura estabelecimentos que possam estar relacionados à venda irregular. Mas a maior dificuldade está no fato de que o produto dificilmente fica exposto, ou seja, é vendido de forma clandestina. Além disso, por se tratar de uma cidade pequena, quando há uma denúncia ou uma ocorrência que ganha repercussão, os comerciantes podem saber antecipadamente que haverá fiscalização e ocultar o produto, dificultando a apreensão.
A coordenadora afirma que essa dificuldade não é exclusiva da Vigilância Sanitária, mas também atinge as investigações da Polícia. Por isso, a denúncia tem papel central, pois é a partir das informações recebidas que os órgãos conseguem cruzar locais, ocorrências e possíveis pontos de comercialização.
Um problema que também é de saúde pública
A rotina de cuidar de tantos animais também representa um custo financeiro significativo com alimentação, vacinação, castração e cuidados veterinários. Mas, para Branca, existe ainda outra preocupação que é a possibilidade de que o veneno deixado nas ruas ou em áreas próximas às casas também alcance crianças ou outros animais.
É nessas circunstâncias que a preocupação com o chumbinho não se limita à proteção dos animais. Afinal, por ser clandestino e não ter registro na Anvisa, o produto pode apresentar diferentes substâncias e concentrações, sem que o consumidor tenha informações confiáveis sobre sua composição.
A Anvisa alerta que os produtos comercializados como chumbinho são, em geral, agrotóxicos desviados ilegalmente para serem usados como raticidas, e justamente por não possuir registro, não apresenta informações confiáveis sobre composição, manuseio, atendimento médico ou antídoto em caso de intoxicação. Isso amplia o risco de exposição acidental de pessoas, principalmente crianças.
Uma criança que encontra o produto no chão, um animal que ingere uma isca ou mesmo uma pessoa que manipula a substância sem saber exatamente o que ela contém pode ser vítima de intoxicação.
