A juventude na política: desafios, influências e o potencial de transformação 

Por Nataly Leoni
Publicado em 26/09/2024

Ao longo da história, a juventude se apresentou como um agente social crítico  e combativo quando se trata de política. Por mais que essas atitudes fossem taxadas como rebeldia em alguns casos, é fato que nos momentos mais obscuros da história da política brasileira, os movimentos jovens fizeram a diferença. 

Movimentos como a Passeata dos Cem Mil em 1968, durante a Ditadura Militar, mostraram a força da juventude ao se posicionar contra a repressão após o assassinato de um estudante. O movimento Diretas Já, de 1984, também foi impulsionado por jovens que exigiam a retomada das eleições diretas no Brasil. E em 1992, o movimento Caras-Pintadas, liderado por estudantes, foi às ruas para reivindicar o impeachment de Fernando Collor. Essas mobilizações mostram a capacidade de questionamento e influência da juventude nas decisões políticas em momentos críticos da história.

Atualmente, embora a digitalização tenha dado novas formas e terrenos para a disputa e o engajamento político, a juventude continua a se destacar em lutas sociais e políticas. Movimentos de combate ao racismo como o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que teve início com uma campanha online em 2013 e tomou proporções mundiais, mostram esse engajamento. No Brasil, a mobilização da União Nacional dos Estudantes (UNE), chamada de “Tsunami da Educação” contra os cortes de verba, em 2019 durante o governo Bolsonaro, foi um dos maiores exemplos recentes dessa presença da juventude ao lidar com decisões políticas  que possuem um impacto em seu futuro.

A estudante Hiale Silva de 16 anos é uma das integrantes do Núcleo de Cidadania dos Adolescentes de Poções, o NUCA, e acredita que a participação jovem na política em diferentes campos pode fazer com que os governos olhem para a sociedade atual com outros olhos. “A política atual precisa dessa ‘renovação’ que só os jovens podem proporcionar com novas ideias e perspectivas diferentes sobre as pautas. Além de que, muitas vezes nós estamos mais conscientes das questões atuais, como as alterações climáticas e a justiça social. Nossa participação na política garante que as gerações futuras sejam representadas nas decisões que afetarão as suas vidas”. 

Hiale Silva, estudante

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de jovens de 16 a 24 anos que compareceram às eleições ou que se candidataram, cresceu nos últimos anos. Em 2022, as eleições presidenciais contaram com mais de 2 milhões de eleitores nessa faixa etária, e o número de candidatos com menos de 30 anos também subiu em comparação com as eleições anteriores. 

Apesar do aumento, o comparecimento de jovens às urnas e a corridas eleitorais ainda é pequeno. Mas, como já discutido, a participação jovem não é, e não deve ser pautada apenas por índices registrados durante o período eleitoral, como afirma a cientista social Escarlath Ohara Botêlho Tosta. “Quando a gente fala em política, o primeiro pensamento que vem na nossa cabeça são as eleições, mas a gente precisa desmistificar isso, porque a política está no nosso dia a dia. Todas as ações que vão desencadear em consequências para a vida pública são políticas. Na escola, na universidade, e até em casa, a gente está exercendo política”. 

O que afasta os jovens da política?

A estudante Samara Lima Costa, de 16 anos, também integra o NUCA como uma forma de aprender sobre cidadania e a importância de se fazer presente na política desde cedo. Para ela, os jovens têm o desejo de participar das discussões, das decisões, como também de ocupar cargos políticos. “Eu sinto que os jovens têm interesse, porque reflete na vida deles. Quando o impacto é direto, é claro que surge uma vontade de estar presente, de mudar alguma coisa”, afirma Samara.

Samara Lima Costa, estudante

No entanto, apesar desse desejo, muitos jovens acabam não se envolvendo. Um dos principais motivos que desencorajam a participação é a baixa representatividade em posições de destaque na política. “Se a gente for analisar dados do IBGE, os jovens de 15 a 29 representam cerca de 20% dos eleitores. Então eles participam, mas tem aquela questão da crise de representatividade, os jovens não se veem representados”, explica Escarlath Ohara.

A cientista social acrescenta ainda que o histórico de corrupção, polarização  política e a classe política composta, em sua maioria, por homens mais velhos, faz com que os jovens se distanciem por conta própria ou que acreditem que a política está muito longe de sua realidade. 

Assim como  Escarlath Ohara, Hiale Silva também acredita que a falta de representatividade aliada à desinformação, afeta a participação da juventude. “Muitas vezes os jovens olham para os políticos, para as pessoas que ocupam cargos políticos em Poções, na Bahia, no país em geral, e não se sentem representados”. Para Hiale, a imagem que muitos políticos passam, colabora com o aumento desse desinteresse. Ela defende também que a falta de informação e de oportunidades para os jovens se envolverem deve ser trabalhada de forma efetiva.

Estes fatores acabam refletindo também nos dados de filiações aos partidos políticos coletados pelo TSE. Entre 2018 e 2022, apenas 1% dos eleitores de até 24 anos faziam parte de algum partido, correspondendo a 170 mil pessoas. Além disso, um ano depois das eleições presidenciais de 2022, a quantidade de jovens filiados caiu em 14%. 

O que pode ser feito para aumentar esse engajamento? 

Para que os jovens queiram se aproximar de questões políticas é necessário que haja um incentivo a promoção do conhecimento a respeito da política desde cedo.  Escarlath Ohara destaca que deve-se entender a participação política como um elemento essencial para a democracia, que sem isso ela perde o sentido, e que a única forma de mudar o cenário atual é agindo. “Podem participar de  associações de bairro, na escola tem o grêmio estudantil, na faculdade os centros acadêmicos e o DCE [Diretório Central dos Estudantes] e podem falar sobre suas demandas, suas queixas, que muitas vezes não são ouvidas”.

Para tanto, é necessário mudar a visão que a maior parte das pessoas têm da política. “Vivemos em um sistema com participação eleitoral obrigatória, e embora a multa por não votar seja simbólica, é preciso começar a entender essa participação como um direito e não apenas um dever”, explica Escarlath Ohara. Historicamente, os jovens eram frequentemente excluídos das discussões políticas, considerados imaturos ou incapazes de compreender os processos. No entanto, o direito ao voto aos 16 anos é uma conquista, fruto de lutas de gerações anteriores, que deve ser levado a sério e valorizado.

Além disso, é preciso levar em conta que a grande maioria dos jovens, atualmente, são influenciados também pelas redes sociais. Escarlath Ohara alerta para os riscos associados ao uso dessas plataformas. “As redes sociais podem ser perigosas, dependendo do conteúdo que é transmitido. Vimos isso com a polêmica do antigo Twitter, justamente por não ter fiscalização nem filtros adequados, qualquer coisa podia ser postada.”

Apesar dos perigos, as redes sociais também oferecem benefícios para influenciar e educar essas pessoas. “As informações estão ali, facilmente acessíveis. Tem muita gente produzindo conteúdo político de qualidade, e os jovens podem se beneficiar disso”, afirma. 

A política, como um conceito amplo, ainda é pouco discutida no ambiente escolar e, muitas vezes, quando é discutida, é limitada aos pleitos eleitorais. Por isso, a cientista social defende que a política deve ser discutida de forma mais efetiva, contanto que haja respeito e que os direitos dos outros não sejam violados. Para ela, as redes sociais podem ser aliadas na educação política desses jovens, mas essa aliança deve ser construída de forma consciente e cuidadosa. “É fácil ser influenciado pelo que está ali, então é preciso estar atento ao conteúdo que consumimos e compartilhamos.”

Foto de Capa: Pixabay

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