Desde a primeira vez que o viu, Igor Neves soube que o skate faria parte de sua vida. Ainda na infância, sua mãe tinha preocupações que ele praticasse o esporte, ele passava horas observando os primos skatistas no Jardim dos Pássaros, bem em frente à sua casa. Voltava da igreja que frequentava com a família e ficava por ali, hipnotizado por cada movimento. Apesar de ter apenas cinco anos, gostava de estar por perto, acompanhando tudo, esperando pelo momento em que pudesse juntar-se a eles.
Um dia, Igor acreditou que esse momento havia chegado quando um de seus primos prometeu lhe dar um skate em troca de garrafas de água para todos do grupo, e Igor acreditou. Mas, antes que conseguisse sair de casa, o portão foi trancado. “Chorei, fiquei louco, tentei pular o portão, cortei minha mão, foi todo um trampo”, conta. Assim, percebendo o desespero de Igor, seus pais deixaram que ele saísse novamente.
Quando finalmente conseguiu voltar ao jardim naquele dia, Igor Neves ganhou seu primeiro skate e andou pela primeira vez. Foi o início de tudo. Desde então, nunca mais se identificou dessa forma com nenhum outro esporte. “Foi amor à primeira vista. É até difícil expressar, o skate molda meu estilo de vida, meu jeito de ser, meu relacionamento, todas as minhas conexões são através do skate”, afirma.
Com o tempo, o amor de Igor pelo skate apenas cresceu. “Quando eu estou naqueles momentos tranquilos, é a melhor sensação da minha vida. Andando de skate é onde eu me sinto eu, é uma liberdade fora do comum”, conta o atleta.
Entre 2011 e 2012, Igor começou a praticar o skate em locais improvisados, pois a cidade ainda não tinha um local adequado. Ele e os amigos criavam obstáculos com materiais reaproveitados, como madeira e ferros utilizados em eventos na cidade.
Com a evolução de suas habilidades, incentivo de membros da comunidade e amigos, ele começou a participar de competições, conquistando seus primeiros pódios e abrindo caminho para novas oportunidades. Muitas vezes, viajava apenas com a passagem em mãos, confiando que tudo se resolveria na chegada. Para ele, cada vitória era fruto do esforço, das conexões que criou em cada lugar e de sua fé.
O empenho dos atletas permitiu que a prática resistisse na cidade apesar da falta de infraestrutura. Aspecto que fez parte das pautas de reivindicação durante muito tempo até que entre 2016 e 2017, Igor Neves, junto com outros atletas, presenciou a construção da pista de skate local, um espaço que hoje atende skatistas, praticantes de BMX e patins, e que se tornou uma referência na região. Essa mudança permitiu que Igor consolidasse sua participação em campeonatos oficiais e, em 2020, conseguiu trazer etapas do circuito baiano para Poções pela primeira vez.


Dos campeonatos à busca por evolução
Em 2025 Igor Neves competiu e conquistou o Campeonato Baiano de Skate. O evento marcou a quarta e última etapa da Liga Baiana de Skate do Interior, um circuito criado pelos próprios atletas da região, que buscavam não depender apenas das etapas do circuito baiano para conquistar vagas no Campeonato Brasileiro. As etapas passaram por cidades como Ilhéus, Jequié, Poções e Porto Seguro, definindo os campeões do ranking e os classificados para a competição nacional.
Para Igor, a experiência adquirida foi mais do que a disputa em si. Participar do campeonato significou reencontrar amigos antigos, conhecer novos skatistas da região e de outros estados, e sentir o retorno do esforço coletivo na organização da liga. “Foi uma experiência muito top, porque eu estava com todos os meus amigos de longa data e conhecendo outros amigos. É uma experiência que vai além do resultado, ela é só uma consequência. O resultado que eu tive, foi através das conexões que eu tive lá”, diz Igor.
Mas não é a primeira vez que Igor Neves se classifica para o Campeonato Brasileiro de Skate. O atleta já participou outras duas vezes: em 2017, na categoria iniciante, que aconteceu em Brasília, e em 2024 na categoria amador, realizado na cidade de Santos, em São Paulo. Agora, sua terceira vez competindo a nível nacional será em Cuiabá – Mato Grosso. “Eu não tava muito preparado, mentalmente, e agora eu tô mais focado pra dar o meu melhor. Agora é treinar muito e só ir lá e me divertir, mandar minhas manobras”, conta.
O atleta ressalta ainda seu orgulho de levar o nome da cidade para a competição. “Quero viajar, quero conhecer o mundo inteiro, mas Poções é a minha base, eu acho que esse amor que eu tenho por tudo isso, me fez correr atrás ainda mais e ver que é possível”.
Sobre sua preparação para o Campeonato Baiano e que seguirá também para o próximo, Igor explica que mantém uma rotina de exercícios que, ao longo dos anos, o ajudaram a evoluir no esporte. Além dos treinos de skate, ele corre, pedala, faz musculação e treino funcional. O cuidado vai além do físico, ele mantém uma boa alimentação, procura ter boas noites de sono e evita o consumo de álcool e cigarro. “Hoje é um hábito, se eu não fizer eu não me sinto bem, eu não me sinto eu. Quando eu tô meio mal, vou andar de skate, vou correr, vou fazer alguma coisa que seja, vou malhar… com isso eu respiro de novo. O esporte, hoje, faz parte da minha rotina mesmo, da minha vida. É como escovar os dentes”.
Mas o foco e a dedicação nos treinos nem sempre foram suficientes para superar os obstáculos fora das competições. Igor afirma que sua maior dificuldade ao longo de todos esses anos tem sido a falta de apoio, principalmente por ser um atleta que já representou a cidade em diversos campeonatos e repetirá o feito no próximo Campeonato Brasileiro. “A gente pediu um carro pra um evento importantíssimo, que foi essa quarta e última etapa, e que se eu não fosse com as minhas próprias despesas, se não fosse minha galera, que me ajuda, minha mãe, minha família, eu não estaria agora com essa vaga”, conta.
O atleta destaca que em diversos momentos ele acabou desistindo de ir para eventos por falta de recursos e apoio do poder público municipal. “Eu fico triste, porque não é só um problema de Igor Neves, acontece com toda a comunidade”.

Associação Poçõense de Skate
Para quem está começando, Igor afirma que o mais importante é ter pessoas que te apoiem por perto. “Colar com a galera certa, vai fazer total diferença. Como qualquer outro esporte, precisa de uma galera pra você estar junto ali. Às vezes a gente fica com dúvida, tipo: ‘pô, quando é que eu começo? Será que esse tênis é ideal?’ Eu acho que a gente só tem que começar. Com o skate que a gente tem, com o tênis que a gente tem. E através disso, gradativamente, as coisas acontecem.”
O atleta reforça a importância de aprender com um professor para que a evolução seja mais rápida. Igor, não fez aulas quando estava aprendendo, mas entende que teria sido uma ajuda a mais para acelerar seu crescimento como atleta. Assim, ser professor de skate foi apenas um dos propósitos que Igor Neves encontrou na prática do esporte. Há oito meses, Igor idealizou e colocou em prática junto com amigos skatistas, a Escolinha de Skate da Associação Poçõense de Skate.
A escolinha é um projeto social que tem como objetivo além de ensinar a prática do skate, ser um local de acolhimento voltado principalmente para crianças e adolescentes. Atualmente, o projeto reúne cerca de 25 a 30 crianças e adolescentes, com encontros semanais na pista de skate e, apesar de ser algo recente, já se tornou um refúgio para muitas dessas crianças, que em momentos de conversa compartilham histórias, desafios e aprendizados. “Foi Deus que tocou no meu coração, acho que agora é o momento de você fazer essa ponte de amor, de conexão pra galerinha”, conta Igor Neves.
Mesmo sem apoio do poder público, a escolinha se mantém com a ajuda de alguns empresários locais, que colaboraram na confecção dos coletes usados pelos alunos que podem aproveitar as atividades de forma gratuita. Para Igor, o projeto é uma das formas mais sinceras de retribuir o que o skate lhe proporcionou.
Os próximos passos de Igor Neves no skate
Em relação a sua família, Igor Neves conta que apesar da resistência de sua mãe no começo, atualmente ela é uma das pessoas que mais o apoia, não só ela como todos à sua volta contribuem de alguma forma. “Eles me ajudam de várias maneiras, de fato a gente está unido nessa, eles são muito parceiros”, conta. Além de Igor, a família possui outros atletas que também competem. “A gente está sempre nessa conexão, é algo que faz parte da nossa família, é como se a gente tivesse a mesma vibração”.
Quando pensa em seus próximos passos, Igor deixa claro que tem sua fé como um guia. O foco, no entanto, está em conquistar o Campeonato Brasileiro e se profissionalizar no skate. “Tenho esse objetivo há muito tempo. Quero alcançar esse nível e, com isso, ajudar outras pessoas. Não chegar sozinho, mas junto com a minha galera, com minha comunidade, com minha família.”