Começa nesta sexta-feira (15/05), a programação da Mostra Cultural 2026, realizada na Praça do Coreto. A Mostra Cultural é o evento que abre a programação da Festa do Divino de Poções e traz, entre os destaques do palco principal, artistas locais e regionais.
Com início previsto para às 21h, após a missa, a abertura do evento contará com apresentação da Camerata Neojibá, de Vitória da Conquista, seguida pelo poçoense Chico Schettini e pela banda Geração Hits.
Enquanto as atrações do palco principal já vêm sendo definidas desde fevereiro, a população passou a questionar, nas publicações das redes sociais e grupos de WhatsApp, a ausência de artistas do município nos cartazes e também a divulgação da programação completa da Mostra Cultural.
Em um comentário na publicação da rede social Instagram, da página oficial da Prefeitura Municipal, um seguidor questiona: “quem são os artistas da terra que vão cantar, faltou divulgar essas informações?”. Outro usuário reflete sobre a ausência. “Poderia fazer um outro cartaz só com nomes, pelo menos do artista da terra achei falta de respeito com os artistas”.
Alguns comentários questionam a ausência de artistas da terra em festas populares e a falta de valorização daqueles que fazem a cultura local acontecer. “Enquanto os palcos das festas populares se enchem de atrações de fora, muitos artistas locais continuam esperando apenas uma oportunidade para mostrar seu talento dentro da própria cidade onde nasceram. É triste perceber que, em muitos municípios, aqueles que carregam a cultura local, a história do povo e a identidade da região acabam ficando invisíveis diante de grandes contratações. As festas populares deveriam ser, acima de tudo, um espaço de valorização da cultura da cidade. O artista local conhece o público, canta a realidade do povo, movimenta a economia da região e inspira outros jovens a acreditarem na arte. Quando uma prefeitura ignora esses profissionais, não está apenas deixando de contratar músicos; está enfraquecendo a própria identidade cultural do município. Muitos artistas passam o ano inteiro ensaiando, investindo em instrumentos, figurinos, transporte e divulgação, mas chegam os grandes eventos e sequer recebem um convite, uma resposta ou uma chance de participar […]”, reflete outro usuário em uma publicação oficial da página da prefeitura.
Os artistas do município também questionaram os atrasos e solicitaram mudanças nas regras do edital. Entre as mudanças exigidas, está o fato de o artista que toca em mais de uma banda só poder receber por uma. “Estamos exigindo mais transparência, critérios objetivos e igualdade de oportunidades para todos os artistas. […] Muitos artistas tiveram dificuldade até para entender prazos, critérios e exigências do processo. Um evento que deveria fortalecer a cultura local acabou gerando insegurança e indignação em boa parte da classe artística”, afirma o presidente da Associação dos Músicos de Poções, Fabiano Neves.
As mudanças exigidas pela classe dos músicos envolvem a estrutura do edital como um todo. “Defendemos a simplificação da documentação, respeito à realidade dos artistas locais, ampliação da divulgação dos prazos e revisão dos valores dos cachês, que precisam ser no mínimo iguais aos praticados no ano passado. Além disso, queremos que o edital seja construído com participação da classe cultural, evitando erros, contradições e exigências excessivas”, explica Fabiano Neves.
O presidente da Associação ressalta ainda que a manifestação dos músicos e artistas visa um tratamento mais digno por parte da Coordenadoria de Cultura para todos os artistas locais. “A manifestação não é um ataque à cultura, mas um pedido legítimo de valorização. A coordenadoria precisa ouvir os músicos, produtores e fazedores de cultura antes de tomar decisões. O que queremos é transparência, correção dos problemas apontados e garantia de que os artistas locais terão tratamento digno e justo dentro da programação cultural do município”, diz.
Marcos Alves é percussionista e multi-instrumentista poçoense. Atuando na música desde 2011, ele já se apresentou com a banda de fanfarra Afro´z Ritmos em outra edição da Mostra Cultural. Para ele, a demora na organização da programação prejudica os artistas. “Não sabemos quais as bandas que passaram no edital, quais estão selecionadas para tocar”.
Para Marcos, é preciso saber mais da realidade do artista, acompanhar os grupos ativos anualmente, principalmente para artistas que enfrentam dificuldades com as burocracias do edital. “Muitos artistas estão preocupados porque não sabem como preencher, não sabe como tirar os documentos, então, na minha opinião, deveria ter um olhar mais sensível, justamente para entender a realidade no nosso município, porque eu acredito que mesmo sendo um edital, dentro da lei, esse edital pode ser reformulado de uma forma mais simples para facilitar a vida do artista”.
O músico destaca que a Mostra Cultural é fundamental para enaltecer os artistas da terra, dentro da estrutura e visibilidade que tem a Festa do Divino.
O coordenador de cultura do município, José Renato Schettini, explicou que a demora na divulgação acontece devido às solicitações exigidas pela associação de músicos do município para mudanças no edital. “Quando o edital foi suspenso a gente já tinha recolhido o material de artistas cadastrados e não valia mais, aí a gente teve que esperar relançar o edital para começar esse trabalho de novo”, explica.
Algumas exigências feitas pelos músicos foram feitas. De acordo com o coordenador, uma das alterações foi a duplicidade de CPF. Com a mudança, os músicos que tocam em mais de uma banda e antes eles receberiam por uma apresentação, agora passarão a receber por até duas bandas. “A gente também já revisou e vamos lançar uma errata permitindo que essa pessoa toque duas vezes. A gente entende que a demanda é grande”.
José Renato também explicou que, em relação ao cachê, não foi determinado apenas pela Coordenadoria de Cultura. “Esse cachê, ele obedece a uma soma entre o que foi pago na Festa do Divino do ano passado e o que foi pago no Natal de 2026, para assim chegar a um denominador comum. Porque isso é regramento licitatório, isso são as leis de licitação que estabelecem.”
Para Fabiano Neves o poder público deve olhar com mais atenção para os artistas locais que fazem acontecer o calendário cultural da cidade durante todo o ano. “Os artistas locais não podem ser lembrados apenas para “completar grade”. É necessário investimento real, cachês justos, estrutura adequada, respeito profissional e espaço de destaque nos eventos. Valorizar os artistas da terra é fortalecer a identidade cultural do município e movimentar a economia local. Cultura não pode ser tratada como favor, mas como direito e investimento”.
Programação
Neste ano, a programação da Mostra Cultural segue até o dia 24 de maio. “A novidade é que, nos anos anteriores, a mostra acontecia com shows às quintas, sextas, sábados e domingos. Neste ano, conseguimos montar um palco permanente, o que permitirá apresentações musicais e culturais também durante o dia. Do dia 15 ao dia 20, teremos shows noturnos a partir das 21h. Já a partir do dia 21, as apresentações começam às 15h ou 15h30 e seguem até as 18h30, dependendo da quantidade de artistas locais cadastrados”, explica José Renato.
Até o momento da publicação desta matéria, a programação completa da Mostra ainda não foi divulgada. No entanto, o coordenador de Cultura confirmou apresentações da Banda Pé de Estrada, Afroz’Rap, de grupos de forró da cidade e de grupos de samba de Poções e de outros municípios da região, como o Mulheres no Samba.
“É um acontecimento que busca não apenas preservar a riqueza cultural da cidade. Talvez ainda não tenhamos o cenário ideal, com teatro, quadrilhas juninas e grupos de reisado, mas essa é a proposta: fortalecer a movimentação da economia criativa”, afirma José Renato.