De amante da literatura a escritor: conheça a trajetória de Manoel Freires

O escritor lançou seu terceiro livro, intitulado “O mundo terra, a natureza e o homem”, no Fliap 2025.
Por João Roferr
Publicado em 21/08/2025

A chegada dos 60 anos pode significar o início de diferentes trajetórias. Entre os muitos percursos possíveis, há quem encontre novas formas de expressão e aprendizado. Foi assim com Manoel Freires, que percebeu na escrita a possibilidade de continuar aprendendo e compartilhar esse conhecimento com outras pessoas.

Natural da Zona Rural do município de Boa Nova, Manoel Freires, de 90 anos, conta que desde a infância, além das brincadeiras e diversões, já gostava de ler. Essa influência veio de seu avô, um homem que sempre prezou pela educação, conhecimento e que tinha uma forte influência política na região. O incentivo à leitura e escrita sempre estiveram presentes na vida de Manoel, quase como uma vocação. “Parece que é um dom que Deus me deu”, conta.

Ainda na adolescência, Manoel morou nos municípios de Vitória da Conquista e Mirante, lugares que, juntamente com a cidade em que nasceu, ele considera seu “torrão natal”. Assim como muitos nordestinos, ele também morou em São Paulo por cerca de 20 anos, e foi lá que teve a oportunidade de aprimorar os seus estudos e fez um curso por correspondência.

A relação com a fundação do Sindicato dos Trabalhadores

Em 1979, Manoel tornou-se um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Poções. Após acompanhar as dificuldades dos moradores do campo  e suas demandas, ele foi conhecer o sindicato voltado aos trabalhadores do campo que existia em Vitória da Conquista e se informou sobre o funcionamento, com a intenção de trazer uma unidade para Poções.

“Na época existia uma grande produção agrícola na região, mas às vezes plantava e perdia a lavoura. Outro problema era o escoamento da produção com a falta de meios de transportes. A gente lutou muito por isso, até para conseguir um atendimento médico melhor para o pessoal da zona rural. Arrumamos o médico e pagamos particularmente para atender o pessoal associado, e com isso o sindicato foi crescendo”, explica.

Naquele período, Manoel, ao lado do então assessor do sindicato de Vitória da Conquista, articulou uma reunião com um pequeno grupo de produtores rurais, o que resultou na fundação do sindicato – iniciativa que contou com o apoio do prefeito da época, Pedro Cunha. A consolidação do órgão, porém, não aconteceu de imediato. Foi construída aos poucos, por meio de encontros nas comunidades rurais, nos quais eram apresentado o papel do sindicato e buscava a adesão de novos associados. Hoje, ele considera que o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Poções é um dos mais estruturados e atuantes da região.

A paixão pela literatura e o desejo de escrever 

Ao longo de toda a sua vida, Manoel Freires teve o desejo de escrever alguma coisa,  o processo de pensar e criar histórias, universos e personagens sempre o motivou. Em suas leituras e inspirações, estão nomes como Castro Alves, que o encanta pela poesia, além de Machado de Assis e Olavo Bilac.

Nos romances de Jorge Amado, os traços da literatura popular, a presença constante da vida e costumes baianos eram as características que chamavam sua atenção. Para Manoel, a leitura e a escrita são os mecanismos para instruir a mente. “Acho que todos nós precisamos estar bem informados. A melhor informação é lendo. O melhor aprendizado é escrevendo também.”

O caminho de Manoel Freires na escrita não começou exatamente na literatura. Mas foi movido por essa paixão pela escrita que, em 2006, criou o “Boca no Trombone”, um jornal impresso focado em falar de fatos regionais e sobre Poções. Depois de certo tempo, parou com a atividade jornalística e se dedicou a colocar no papel as histórias que futuramente tornariam livros.

Assim, em 2014, nasceu o seu primeiro livro, intitulado “Neco Boa Vida e Quinca Curador”, uma narrativa das histórias de um boêmio e um charlatão. “Quinca Curador era um charlatão, curador que não sabia nem rezar o ‘Pai Nosso’ e Neco Boa Vida era um sujeito de vida boa que não gostava de trabalhar,  porque ele gostava era de tomar cachaça, tocar viola e fazer a suas serenatas com os amigos”. 

O segundo livro, “Calisto Vassoura: um político maquiavélico”, foi publicado em 2015 e conta a história de um cabo eleitoral da antiga UDN – União Democrática Nacional, um partido político brasileiro fundado em 1945. Calisto Vassoura elegeu-se prefeito com hábitos corruptos. “Esse Calisto era um sujeito corrupto que tudo que entrava na prefeitura ele passava a mão no dinheiro para comprar vaca e égua, enganava e mentia para todo mundo”.

As obras de Manoel Freires são atentas à realidade social e inclinadas ao apelo popular. “Eu tenho liberdade de temas, mas eu sou mais da literatura popular, da linguagem do povo. Minha literatura é nesse sentido, de formar o mais culto como o menos culto. É tanto que meus poemas são mais comuns”, explica o escritor.

Em julho de 2025, na segunda edição do Festival Artístico e Literário de Poções,  o escritor lançou “O mundo terra, a natureza e o homem”. Livro em que chama atenção para as questões climáticas e alerta sobre a poluição, queimadas, desmatamentos, o uso indiscriminado de combustíveis fósseis e a liberação de gás carbônico na atmosfera. “Como agora no final do ano vai ter a Cop 30, que vai ser realizada na cidade de Belém no estado do Pará, eu aproveitei a oportunidade para eu escrever esse livro, para ver se chamo a atenção dos dirigentes mundiais para tomar providências mais sérias, pois, até então, tem tido reuniões e essas coisas todas, mas fica só nas reuniões  e nada em ação de fato”, relata.

Aos 90 anos, Manoel Freires reflete sobre sua trajetória e conta que tem vontade de escrever novos livros, mas explica que espera que seu último livro tenha uma aceitação do público. Todas as suas obras são lançadas de maneira independente, sem editora e, por isso, o apoio do público é fundamental. Ele também revela que se sente grato pelas conquistas, mesmo com os desafios dos dias. “Tem horas que você está feliz, outras que está triste, horas que tem algum acontecimento, algum imprevisto e assim por diante, mas seguimos agradecendo por estar vivo e são. E posso dizer que me sinto feliz e não há arrependimento de ter vindo ao mundo”.

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