De atleta a referência, Joelma Lopes amplia caminhos pelo esporte em Poções

Destaque no ciclismo e no atletismo, a atleta já soma mais de 70 títulos, medalhas e prêmios
Por Leila Costa
Publicado em 10/04/2026
Joelma Lopes Foto: arquivo pessoal

Na infância, Joelma Lopes cresceu em meio a uma vida marcada por movimentos e sonhos. As brincadeiras típicas de uma criança da zona rural, corridas para os riachos e caminhadas para pegar umbu, eram parte da sua rotina diária. Até os oito anos, sua infância seguia esse ritmo tranquilo na zona rural de Boa Nova, cenário onde construía suas primeiras memórias. Foi nesse período que sua vida tomou um novo rumo, quando precisou se mudar com a família para a cidade de Poções. 

A decisão foi tomada pelas dificuldades do trabalho na roça, mas, sobretudo, pela necessidade de dar continuidade aos estudos. Mesmo sem querer partir, foi o desejo de seguir estudando que a impulsionou a aceitar a nova realidade e dar início a uma nova etapa de sua história. A mudança, no entanto, não foi fácil. Deixar para trás a convivência com a avó e o lugar onde se sentia feliz foi um dos primeiros desafios que precisou enfrentar. “Fiquei na casa dos meus tios, sempre com vontade de retornar. Minha mãe ficou na zona rural, depois ela veio pra cá, pra cidade também, aí eu fui morar com ela”, explica Joelma.

Anos depois, a avó de Joelma também foi morar na cidade, e ela novamente passou a viver ao seu lado. “Eu corri e fui morar com ela, não falei nada com ninguém. Só fui morar com minha avó”, explica.

No bairro Açude, onde mora até hoje, Joelma também viveu intensamente os últimos anos da infância e a adolescência. Nas ruas tranquilas do bairro, ela brincava de pular corda com outras crianças. Foi por lá que ela também começou sua trajetória no esporte.

A trajetória no esporte aliada ao compromisso com os estudos

O caminho de Joelma Lopes no esporte é marcado pelo atletismo e pelo ciclismo, mas foi com o ciclismo que a prática começou a ser algo constante em sua vida. “Eu comecei a querer participar do ciclismo e fazer trilha com a galera do pedal”.

Ela conta que na empolgação de iniciante, não aguentava ver uma bicicleta que pedia emprestada para pedalar. “Teve uma vez que eu peguei uma bicicleta e fui pedalar no bairro Açude, a bicicleta soltou o pedal, o pé de vela me machucou, e eu fiquei um dia no hospital”, lembra.

Antes de começar a fazer as trilhas, Joelma tinha uma bicicleta de alumínio, simples e sem marcha, que acabou sendo roubada. Alguns meses depois, ela aprendeu a fazer ovos de Páscoa e, com o dinheiro das vendas, conseguiu comprar uma outra bicicleta. “Fui juntando aquele dinheirinho, fui lá na Pedal e comprei uma bicicletinha melhor”, conta.

No início de sua trajetória no ciclismo, ela era a única mulher integrante daquela equipe e já saia de casa preocupada e receosa de dar trabalho aos demais. “Eu saía cedinho,  5h30 ou 6h da manhã,  já estava no ponto de encontro. Às vezes, a gente fazia mais de 100km no dia, e eu só chegava em casa por volta das três da tarde. Às vezes sumia todo mundo, eu ficava para trás, mas eu não desistia”, conta a atleta.

Para ela, essas experiências lhe deram força e reconhecimento, possibilitando convites para participar de competições. “Eu ia para aquelas competições, no início, com minha bicicletinha bem simples. Estava ali representando Poções, no meio de muitas mulheres campeãs, com suas bicicletas caras”. 

Não demorou para que Joelma também começasse a desbravar o atletismo, correndo sozinha pelas ruas do bairro onde mora até um sítio próximo do local. “Depois, eu  levei  a ideia da corrida para o pessoal também e foi  aí que eu comecei a participar de competições de corrida”, narra.

Ela ficou cada vez mais apaixonada pelo atletismo e, nem mesmo o falatório da vizinhança a fez desistir. “Eu comecei a correr e sempre ouvia o pessoal falando assim: ‘essa menina tá doida’; ‘tu vai voar, é?’; ‘Magrinha desse jeito e correndo… para emagrecer não é’”. Joelma apenas respondia que corria porque gostava. 

Em 2016, veio a oportunidade de participar da primeira competição de atletismo. A Corrida das Estações aconteceu em Vitória da Conquista, em junho daquele ano. Naquele período, ela já tinha montado um grupo de corrida com os amigos do bairro e, ao comentar sobre a prova, eles prontamente decidiram participar. “Então, fomos em cinco. Saímos sem entender nada. Eram 10km e eu fui a campeã da prova. Mesmo sem entender, saí correndo e cheguei em primeiro lugar”, relembra.

Ter vencido a primeira corrida e desbancado atletas renomadas da cidade, além de despertar o interesse dos demais atletas presentes, também serviu de motivação para Joelma acreditar que ela podia muito mais. “A partir daí, a gente foi participando de outras provas na região, além das de Conquista”.

Joelma seguiu a carreira no esporte sem abandonar os estudos, mantendo as duas atividades ao mesmo tempo. Seu maior desejo era cursar Educação Física e se profissionalizar ainda mais. No entanto, o curso não é ofertado no campus da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia em Vitória da Conquista, e cursar uma Faculdade particular estava fora do seu orçamento. Foi então que uma amiga a aconselhou a prestar o vestibular para o curso de Letras da Uesb.  Ela foi aprovada e, mesmo com as dificuldades, cursou toda a graduação, indo e voltando diariamente nos ônibus da associação de estudantes do município. 

Durante a graduação, ela continuou morando com sua avó e dividia o tempo entre os estudos e o cuidado com ela, que já enfrentava por alguns problemas de saúde. “Minha avó ficou deficiente visual, acabou ficando cega. Eu tive que cuidar dela. Fazia as coisas, preparava a comida, colocava no prato para ela e saía correndo para pegar o ônibus”, conta Joelma.

Quando finalizou a faculdade, começou a trabalhar como professora substituta no Colégio Estadual Roberto Santos. Durante esse tempo, continuou participando de competições e colecionando títulos, mas o sonho de ter outra formação seguia presente em sua rotina. E foi então que ela decidiu vivenciar seu sonho. “Decidi tentar outro vestibular para a Educação Física. Pensei que, se eu não passasse, pelo menos teria tentado. Fiz, e fui chamada”.

Desta vez, o curso para o qual ela foi aprovada ficava localizado no campus da Uesb da cidade de Jequié e, devido a distância, não era possível ir e voltar diariamente. Joelma precisou mudar-se para Jequié. “Minha avó falava ‘menina, você está louca. Como você vai fazer isso e como vai sobreviver?’ Eu só respondia que eu ia dar um jeito, que ia tentar”. 

A segunda graduação foi um processo complexo e mais difícil para a Joelma. Ao chegar em Jequié, precisou correr atrás de lugar para morar e achar meios de se sustentar. Depois de muita luta, conseguiu um cargo de monitor escolar e com o dinheiro pagava o aluguel e despesas básicas.  No primeiro espaço que morou, ela conta que chegou a passar necessidades a ponto de dormir sem comer. “Eu lembro que ia dormir com vontade de comer um arroz puro, uma farinha. Eu até chorava, lembrava da casa da minha avó”, relata.

Depois de um tempo, ela começou a participar de programas de assistência estudantil da universidade e, com os auxílios, conseguia ter uma tranquilidade para pagar as contas, alugou um novo quartinho e também aproveitava as corridas que tinha na cidade para ganhar um dinheiro extra. “Teve uma época em que fui trabalhar em uma pizzaria. Trabalhava à noite, madrugada adentro, e pela manhã ainda tinha aula. Não aguentei. Foi então que tentei o PIBID [Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência] e outros projetos e programas da faculdade, e, a partir daí, o curso foi fluindo”, explica.

Quando entrou no período da pandemia da Covid-19, Joelma voltou para casa em Poções e, no online, finalizou mais uma graduação. Já com a nova formação, conseguiu uma vaga no Regime Especial de Direito Administrativo (REDA) do governo do estado, novamente no Colégio Roberto Santos, local que trabalha atualmente como professora de Educação Física.

Entre a sala de aula e o projeto social

No colégio, a professora Joelma também fala sobre vencer as dificuldades, a lutar por sonhos e incentiva os alunos a persistir no que acredita. “Eu trago muito essa ideia do cuidado: você pode ser tudo o que quiser ser, mas, ao encontrar uma alma humana, você é tocado a também cuidar dela”, diz.

Paralela a carreira de professora e de esportista,  Joelma também ajudou a fundar e faz parte de um projeto social Centro Cultural e Desportivo, onde atua de forma voluntária ao lado de Maicon Chagas, desde 2017. “Saio da correria aqui da escola e já vou para lá. Vou porque gosto e também porque acredito que o esporte é uma ferramenta de transformação social. Claro que, às vezes, bate um desânimo, pois não é fácil. Tem a falta de reconhecimento, as dificuldades e a falta de apoio”, explana.

Joelma Lopes e atletas do Centro Cultural e Desportivo Foto: Arquivo pessoal

O  Centro Cultural e Desportivo é um projeto que incentiva o esporte e utiliza a corrida como meio de transformação social e, atualmente, atende crianças do bairro Açude e demais bairros da cidade de Poções. A iniciativa já foi destaque no Esporte Espetacular, da Rede Globo, por sua atuação e a transformação que gera na cidade. Mesmo com as dificuldades, Joelma enxerga nas mudanças que o projeto provoca um motivo para continuar. “É pelas crianças ali, às vezes, você quer mudar de alguma forma, você usa aquela arma pra ser a mudança, ser a transformação vida das pessoas”.

Com o projeto, ela auxilia as crianças na corrida e também os leva para correr em outros espaços, como as corridas na zona rural e em outras cidades. “Sempre estamos incentivando as viagens e levando elas para essas viagens”. 

Conquistas e sonhos

Joelma já correu por diversas cidades da Bahia e também por outros estados. Ao longo de sua trajetória, acumula mais de 70 títulos, medalhas e prêmios, sendo inspiração para mulheres e meninas e levando o nome de sua cidade por onde passa.

Ela também pretende continuar investindo em sua formação acadêmica, com o objetivo de cursar um mestrado na área de Educação Física. Entre seus planos, está ainda o desejo de abrir a própria academia e empreender com foco no público feminino. Além disso, tem como meta organizar uma corrida fixa para mulheres em sua cidade. “Não vai ser fácil, mas é possível, então eu deixo essa mensagem pra quem, às vezes, pensa em desistir. Eu fico com medo? Claro que tenho medo, mas eu estou na luta. Enquanto eu tiver vida e força, eu vou lutando e mostrando que somos capazes.”

Relacionados

O encontro destaca a força coletiva das mulheres diante dos desafios cotidianos...
Propostas podem ser inscritas por artistas, coletivos e instituições culturais com atuação comprovada no Município...