Todos os dias, dentro das escolas, aprende-se muito mais do que conteúdos formais. Aprende-se sobre convivência, valores e papéis sociais. Quando uma menina é orientada a agir “como mocinha” ou um menino escuta que “homem não chora”, revelam-se padrões de gênero que ainda circulam na sociedade. Como espaço formador, a escola pode tanto reproduzir esses papéis quanto transformá-los por meio de práticas educativas intencionais. Nesse processo, a coordenação pedagógica é fundamental, pois, ao articular formações e projetos, pode incentivar o diálogo, a consciência crítica e a promoção da igualdade.
Nos últimos anos, discursos conservadores e antifeministas ganharam espaço no debate público e passaram a influenciar também o cotidiano das escolas. Narrativas associadas ao bolsonarismo e ao movimento Red Pill, divulgadas nas redes sociais, reforçam ideias de superioridade masculina e deslegitimação das pautas femininas. Esses conteúdos circulam com facilidade nos celulares de crianças e adolescentes e, muitas vezes, são também reproduzidos dentro de casa. O resultado aparece na sala de aula, em comentários, piadas e comportamentos que naturalizam a misoginia.
Não por acaso, a própria ficção tem retratado esse cenário: a série “Adolescência”, lançada pela Netflix em 2025, aborda a influência do discurso Red Pill no ambiente escolar e mostra como a promoção da masculinidade tóxica pode culminar em violência extrema, quando um estudante assassina uma colega após ser chamado de “incel” que significa: involuntariamente celibatário. A narrativa é ficcional, mas o debate que ela provoca é real e dialoga com tensões que já fazem parte do cotidiano das escolas.
A escola, que deveria ser espaço de emancipação, acaba refletindo o machismo estrutural da sociedade. As consequências são visíveis: em 2025, o Brasil registrou 1.470 feminicídios, segundo reportagem do G1 publicada em janeiro de 2026, o equivalente a quatro mulheres mortas por dia. Não se trata apenas de estatísticas, mas de vidas interrompidas por uma cultura que naturaliza violência contra as mulheres.
Essa cultura começa cedo. A pesquisa “Livres para Sonhar”, da ONG Serenas, realizada no final de 2025, revelou que sete em cada dez professores já presenciaram comentários sexualizados de meninos contra meninas nas escolas. Quase metade dos docentes ouviu falas sexistas de colegas. O problema não está apenas nas ruas, em casa ou nas redes sociais. Ele está na sala de aula.
Nesse sentido, pensamos na coordenação pedagógica, que ocupa um lugar estratégico: acompanha planejamentos, organiza formações, intervém nas práticas, articula o projeto político-pedagógico, etc. Tendo assim um poder formativo, e onde há poder formativo, há responsabilidade. É nesse ponto que a coordenação pedagógica deixa de ser apenas uma função burocrática e se torna peça-chave na transformação social, especialmente ao tratar de práticas antisexistas.
Se a coordenação optar pela neutralidade, o sexismo continuará sendo reproduzido. Mas se assumir uma postura crítica, pode provocar mudanças profundas. Pode promover formações continuadas sobre equidade de gênero, revisar práticas que reforçam estereótipos, intervir diante de situações de preconceito e mobilizar projetos que envolvam toda a comunidade escolar. Pode transformar episódios cotidianos em oportunidades educativas.
A mudança começa pela equipe. Professores e funcionários também foram formados em uma sociedade machista e precisam reconhecer seus próprios padrões internalizados. A coordenação tem condições de criar espaços de reflexão e romper esse ciclo. Quando isso acontece, a escola deixa de ser apenas reflexo da sociedade e passa a ser instrumento de transformação.
Não é exagero afirmar que enfrentar o sexismo dentro da escola é enfrentar a raiz de muitas violências que vemos fora dela. Se queremos reduzir os índices de feminicídio, precisamos começar pela formação das novas gerações. E essa ação exige intencionalidade pedagógica, compromisso institucional e a construção de práticas educativas que promovam o respeito, a equidade de gênero e a valorização da vida desde os primeiros anos de escolarização.
A escola pode continuar reproduzindo desigualdades ou pode assumir seu papel histórico na construção de uma sociedade mais justa. A coordenação pedagógica tem condições reais de liderar esse processo. Diante de números tão alarmantes, permanecer neutro é, também, uma forma de escolha. E já sabemos a quem essa escolha tem custado a vida.
Alyne Santos é Pedagoga, Designer Gráfico e Mestranda em Educação pela UESB, com pesquisa voltada às relações de gênero e à construção de práticas antissexistas no contexto escolar.