Muito além da representatividade: do que falamos quando abordamos a importância da literatura preta escrita por mulheres?

Michelle Freire, Rabesh Lima, Maria Esmeralda e Vandinha Silva compartilham suas percepções sobre como encontraram na literatura um espaço de voz e identidade.
Por Daniela Palmeira
Publicado em 02/04/2025
Imagem: Daniela Palmeira com fotos de arquivo pessoal

A literatura parecia mesmo era com borboletas. Brancas, azuis, amarelas ou pretas. Livres para ir em qualquer direção, para voar, para criar, cada uma de um jeito, tantas cores e possibilidades, símbolos de transformação. É em borboletas que Michelle Freire pensa quando vem à mente suas lembranças sobre o primeiro contato com a leitura e a escrita. Isso porque, quando estava aprendendo a ler, lembra-se de ter escutado em sala de aula a poesia As borboletas de Vinícius de Moraes.

Esse dia ficou gravado em sua memória e dali em diante sua paixão pelas palavras só aumentou. “Eu queria ler todas as placas que eu via pela frente, tudo que era letreiro, todas as letras diferentes que eu aprendia na escola, eu via e ficava a ler em todo lugar”, relembra. Enquanto crescia Michelle se tornou íntima dos livros, na adolescência começou a rabiscar as páginas finais dos cadernos e a criar seus próprios versos e histórias. Nessa mesma época conheceu os livros de Affonso Manta, as poesias do escritor plantaram uma semente em seu coração: “será que eu não sei escrever poesia? Bora tentar!”.

Escrever sempre foi – e ainda é – um lugar de segurança e desabafo para Michelle Freire. Onde consegue desaguar suas frustrações, dores, angústias, alegrias e conquistas. “Eu escrevia como desabafo e ia guardando”, conta. “Escritora de gaveta” é como Michelle se denominava nos primeiros anos em que começou a criar. Ela escrevia desenfreadamente, suas gavetas enchiam rápido, contudo, não tinha coragem de compartilhar seus trabalhos, tão pouco se via como uma escritora e, por algum tempo, seguiu dessa forma. 

Apenas quando foi convidada para fazer parte do livro Ciranda de Mulambo – coletânea organizada por Rogério Sagui, que reúne trabalhos de diferentes escritores poçoenses – sua ficha caiu. Afinal de contas, não era ela uma escritora? Selecionando as poesias que fariam parte do livro percebeu que seus trabalhos mereciam ganhar o mundo, encontrar leitores, queria seu nome em um livro e suas poesias impressas nas páginas. “Eu comecei a pensar: ‘quer dizer que dá pra sair da gaveta, dá pra começar a ter coragem para sair da gaveta’.”

Literatura como lugar de vivências

“Eu acredito muito na escrita de si”, explica Edivanda de Jesus da Silva, ou Vandinha como é popularmente conhecida. Ela é professora e pesquisadora, e atualmente tem direcionado seus estudos para a área da educação, mais especificamente para a educação anti-racista. Vandinha acredita que a leitura e a escrita têm o poder de transformar vidas, pois transformaram a sua. 

Por isso, em sala de aula, faz questão de estimular seus alunos. “Meus alunos quando vêm conversar comigo sobre alguma dificuldade que está acontecendo, eu digo a eles: ‘escreva, escreva seu sentimento, escreva tudo que você sente, pega um caderninho e vai escrevendo’. Porque, para mim, isso é uma forma de libertação e de autoconhecimento. Além de libertação, é de autoconhecimento porque você consegue de alguma maneira expressar aquilo que você está sentindo.”

Assim como Michelle Freire, foi escrevendo sobre si que Rabesh Lima se percebeu escritora. Na escola, Rabesh teve o apoio e incentivo de uma professora para participar de um projeto que envolvia a escrita e apresentação de uma poesia. Todo o processo para criar a poesia, corrigir e finalizar o texto foi acompanhado de perto pela professora. Sua empolgação com o resultado do trabalho, era o que Rabesh precisava para se sentir segura e conseguir ver, pela primeira vez, diante dela, a alternativa de ser escritora.

Escrever passou a fazer parte da rotina de Rabesh Lima. Tornou-se comum registrar seus sentimentos, reflexões, o que acontecia no seu dia e como percebia o mundo ao seu redor. Ser poetisa lhe proporcionou algo único até então: estar mais atenta e receptiva às possibilidades. “Poder me mostrar mesmo, sabe? Da forma que eu sou, com as coisas que me atravessam, com as coisas que perpassam sobre mim, com a minha identidade. Eu consegui me mostrar mais ao mundo a partir disso, fazendo as minhas poesias, entendendo um pouco sobre mim mesma, colocando no papel, lendo e relendo e me entendendo. Consegui ser mais livre mesmo, para ser.”

Apesar da escrita se fazer tão presente no seu cotidiano, Rabesh tinha dificuldade em nomear-se como escritora e poetisa. “Eu achava que o que eu escrevia seria importante só para mim, porque eu estava meio que desabafando um pouco do que eu estava sentindo, colocando no papel.” Quando foi convidada para fazer parte do coletivo Mandacaru Quando Floresce e ter suas poesias publicadas em um livro junto com outras mulheres poçoenses, a perspectiva de Rabesh se transformou. 

Pela primeira vez pensou que suas poesias poderiam impactar outras vidas; que os seus sentimentos talvez fizessem sentido e fossem motivo de identificação para outras pessoas, principalmente mulheres. “Foi muito importante e libertador pra mim.” Para Rabesh, entender-se como escritora nunca se tratou de uma questão de ego, ou qualquer vaidade, longe disso. Foi sobre entender que poderia – e deveria – ocupar um espaço importante para que sua voz fosse ouvida e suas histórias contadas. 

O coletivo Mandacaru Quando Floresce foi também um lugar de (re)descoberta para Maria Esmeralda Barros. Ela sempre teve uma relação muito próxima com a escrita e a leitura, influenciada principalmente pela mãe e pela irmã, começou ainda muito nova a preencher os cadernos com versos, poesias, histórias aterrorizantes e diários. Em pouco tempo os livros e a escrita se tornaram um lugar seguro e de conforto, onde ela poderia habitar, em um mundo só seu. 

Justo por isso, desde de criança se imaginava escritora. “Adorava criar histórias com a intenção de transformá-las em livros. Ia para o computador, iniciava a história mas não a concluía. A maioria delas eram inspiradas nas coisas que eu via na época.” Suas vivências sempre estiveram fortemente ligadas a tudo que escrevia e ainda hoje é assim. Maria Esmeralda conta que já chegou a escrever sobre preconceitos que sofreu na infância, relacionado a cor da sua pele, ao seu cabelo e a forma como agora, na vida adulta, isso a afetou. 

Hoje, entende que, ao deixar um pouco de si em seus escritos, espera que seus leitores se sintam representados, acolhidos e mais instigados a falar sobre seus sentimentos e vivências. Quando aceitou participar do livro produzido pelo coletivo Mandacaru Quando Floresce, o sentimento de ver seus trabalhos publicados em um livro, ao lado de outras mulheres que tanto admira, não coube em seu peito. “Me proporcionou uma sensação única de pertencimento.”

Além disso, Maria Esmeralda viu sua paixão pela escrita renovada. A publicação foi um sopro de ânimo, que a fez querer melhorar seus textos e criar novos trabalhos a fim de apresentá-los ao mundo.

Maria Esmeralda, escritora

Por que ler escritoras pretas?

Enquanto professora e pesquisadora, Vandinha defende que quando uma criança preta tem acesso e se vê representada em materiais, livros, histórias, poesias, e é estimulada a refletir e escrever sobre isso, ela desenvolve maior consciência de quem é, dos seus direitos, de até onde pode chegar, que pode sonhar. É nessa perspectiva que ela discute a necessidade de trabalhar escritores pretos e, especialmente, escritoras pretas nas escolas desde os primeiros anos de ensino.

“Porque a partir do momento que você estimula a educação, a literatura, a escrita, o desenvolvimento de uma mulher, de uma menina, você consegue libertar toda uma geração”. Vandinha partilha do pensamento da filósofa norte-americana Angela Davis, que argumenta: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. 

Dessa forma, contar as histórias de escritoras clássicas consagradas – como Maria Firmina dos Reis, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Carolina Maria de Jesus –, bem como de escritoras locais e contemporâneas – como Marineide Conceição, Suerlange Ferraz, Fabiana Moura, Michelle Freire, Rabesh Lima, Maria Esmeralda, e tantas outras –, é contar sobre as vivências, memórias, lutas, dores, conquistas e sonhos de uma coletividade de mulheres. 

Ainda assim, Vandinha explica que a literatura feita por mulheres pretas pouco está presente nas escolas. “E se eu falo pouco existe, e nas que ousam existir. Porque tem muito lugar que realmente não existe”. Para a professora e pesquisadora, ainda são muitas as barreiras para que essa literatura ganhe amplo espaço, seja nas escolas ou em outros locais do município, ou mesmo fora das discussões do mês de novembro – quando é comemorado o Novembro Negro. E faz parte da causa antirracista lutar para que esses espaços sejam conquistados e ocupados.

Michelle Freire, Rabesh Lima e Maria Esmeralda participaram do lançamento do livro Mandacaru Quando Floresce no I Festival Artístico e Literário de Poções e perceberam que o livro teve uma boa repercussão. “Mas, acredito que só o ‘Mandacaru’ não é o suficiente”, justifica Maria Esmeralda. Michelle Freire destaca que o cenário cultural em Poções é extremamente diverso e a literatura, enquanto arte e cultura, é também um manifesto político e que por mais que venha ganhando evidência – a passos lentos – é preciso muito mais.

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