Notas sobre o lugar que chamam inferninho

Por Cristiane Campos Marques
Publicado em 27/05/2026
Apresentação do Grupo Ponto de Chapa no Palco da Alegria Foto: Leila Costa

Todo ano aquele espaço da festa do Divino me atravessa de algum modo.

Poções inteira parece se organizar em torno do brilho do Divino: os palcos centrais, as luzes, os espaços mais legitimados, mais “bonitos” para circular. E existe também aquele outro lugar, adjetivado pejorativamente de “inferninho”.

E toda vez que escuto esse nome, alguma(s) coisa(s) me incomoda(m) profundamente.

Porque quando piso ali, não encontro inferno nenhum. Encontro gente simples tentando suspender, ainda que por algumas horas, o peso da vida. Corpos marcados por cansaço, trabalho duro, precariedade, mas também por alegria.  Pessoas ocupando o espaço com o corpo inteiro, sem precisar performar sofisticação. Gente forrozeando, sambando, bebendo, flertando, vivendo.

Encontro humanidade pulsando.

E talvez por isso eu tenha criado até um hábito divertido e curioso: quando colegas e amigos visitam a festa pela primeira vez, quase sempre faço questão de levá-los até lá. Como se, de algum modo, aquele espaço também dissesse verdades importantes sobre a cidade. Verdades que os palcos principais nem sempre conseguem revelar.

Este ano fiquei ainda mais sensibilizada por isso.  A reflexão deixou de ser apenas uma inquietação silenciosa minha e virou conversa. Refleti sobre isso com meu amigo Alex Conceição, enquanto o pai dele, o irmão Alan e outros companheiros se apresentavam com a banda Ponto de Chapa naquele espaço.

Mais cedo, um ex-aluno meu, Luciano, havia se apresentado cantando sertanejo raiz. Em determinado momento, ouvi aqueles versos sobre “armar uma arapuca na beira da estrada pra pegar moça bonita e também mulher casada” e fui imediatamente tomada por uma memória muito íntima e saudosa: painho ligando o rádio ainda de madrugada, acordando a casa com música e cheiro do café passado na hora, o sertanejo antigo preenchendo as primeiras horas do dia.

Comentei até com Binho Sá, um dos músicos que aguardava para se apresentar com o grupo do pai de Alex, como a voz de Luciano carregava uma musicalidade muito bonita, profundamente orgânica. Fiquei pensativa como certas vozes carregam dentro delas não apenas música, mas memória coletiva. E eu estava naquele momento, inebriada por elas.

Talvez tenha sido justamente esse atravessamento afetivo que me fez olhar para o restante da festa de outra forma.

Porque, conversando ali, começamos a refletir sobre como os artistas locais ainda parecem ocupar um lugar muito frágil dentro da própria programação da cidade. A tentativa de inserção via edital pareceu acontecer de maneira atropelada, pouco transparente, com informações desencontradas e pouca divulgação. Enquanto isso, os artistas de outras cidades  pareciam já naturalmente integrados aos espaços centrais da festa.

E isso me fez pensar que, muitas vezes, a exclusão não acontece apenas pela ausência. Ela acontece pela maneira como os espaços são organizados. Pela diferença entre quem recebe estrutura, investimento, circulação e reconhecimento e quem recebe apenas a chance de “estar ali”.

Ao mesmo tempo, achei interessante perceber que aquele espaço chamado de “inferninho” parecia,  nos últimos anos, ter recebido mais atenção do poder público. Um palco melhor estruturado, mais iluminação, mais segurança, mais organização. Pequenas coisas, talvez. Mas os espaços também produzem discursos. A forma como uma cidade organiza sua festa revela muito sobre quem ela considera digno de visibilidade e cuidado.

Claro que isso não apaga o peso simbólico do nome, nem dissolve desigualdades antigas. Mas talvez mostre pequenas fissuras/gretas acontecendo.

Catherine Walsh fala dessas “gretas” onde a vida insiste em existir apesar das estruturas que tentam empurrar determinados corpos e culturas para as margens. E talvez aquele espaço seja justamente uma dessas gretas.

Porque ali havia arte pulsando. Havia memória, pertencimento. Havia músicos  talentosos tocando para corpos que também costumam ser empurrados para as bordas sociais da cidade.

Aníbal Quijano talvez dissesse que ainda carregamos formas coloniais de organizar prestígio cultural, definindo quais vozes ocupam naturalmente o centro e quais permanecem confinadas ao campo do “popular”, quase sempre associado a corpos pobres e periféricos.

Mas a vida escapa dessas hierarquias. E talvez tenha sido isso que mais ficou em mim naquela noite: a percepção de que, muitas vezes, os lugares mais vivos da cidade são justamente aqueles que ela tenta diminuir.

Cristiane Campos Marques é mestre em Letras pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), licenciada em Letras (Português/Inglês), Filosofia e Pedagogia. Professora das redes estadual e municipal de ensino da Bahia. Seus interesses de pesquisa concentram-se na Linguística Aplicada, na educação inclusiva, na dialogicidade da linguagem, na afetividade, nos enunciados verbo-visuais e nas biograficzine, em diálogo com perspectivas decoloniais.

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