“Quando a mulher é violentada, é assassinada, é estuprada, é assediada, todas nós mulheres no mundo somos[…] com base no ódio, não se constrói uma sociedade democrática[…]. Não há uma democracia de gênero, não há democracia de cores”. Falas da ministra Cármen Lúcia, em uma votação no STF sobre casos de violência de gênero e feminicídio em 2024.
O oito de março não é uma data feliz para comemorarmos, tampouco se trata de um dia triste que devemos nos recolher e chorar as dores de sermos mulheres nesta sociabilidade. É uma data para não esquecermos a nossa trajetória de combate a toda forma de opressão que recai sobre nós.
Este é o dia que devemos parar e pensarmos em estratégias para a abertura de novas veias de luta neste organismo social que, mesmo na descontinuidade do tempo, carrega memórias de opressão e tirania sobre as mulheres.
Vivemos sob os interesses do capitalismo que cria mecanismos de poder e perpetuação da acumulação da riqueza nas mãos de poucas pessoas que, por sua vez, detém também o monopólio cultural, construindo mentalidades e padrões de comportamento, nesta perspectiva, passaram a existir a masculinidade e a feminilidade, que se tornaram a base para uma ditadura do papel destas pessoas dentro das organizações sociais. Onde, os homens, imbuídos da masculinidade – muitas vezes por meio da força –, se tornaram o padrão dominante, detentor das propriedades e dos meios de produzir e reproduzir a existência humana.
A partir daí surgiram, o patriarcado, a misoginia e o machismo. Mas as mulheres, conscientes de si e da sua importância para o processo de humanização, de transformação e de evolução histórica, nunca aceitaram passivamente esta dominação.
É nesse limiar que surgem as primeiras manifestações feministas, no século 18, que se consolidam no século 19 e ganham mais notoriedade no século 20, no advento das grandes guerras mundiais, tendo, no Brasil, Bertha Lutz, Rose Marie Muraro e Nísia Floresta como expoentes dessa nova forma de entender a mulher enquanto protagonista da sua história e das suas conquistas.
O feminismo se tornou um marco e um norte para a organização e a união de mulheres com propósitos emancipatórios. Como todo movimento, ele é dinâmico e constantemente alterado pela necessidade de inclusão de mais mulheres, tendo em vista a interseccionalidade entre classe, gênero e raça, mulheres negras e periféricas passam a ocupar os seus lugares no seio das lutas, abordando com suas vozes ativas, as suas especificidades e complexidades, e o feminismo, desta maneira, se reinventa e se fortalece com as ideias de Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez, Edna Rolando e tantos outros nomes que representam as pautas raciais dentro do movimento feminista.
Mulheres do Brasil e do mundo, uni-vos!!!!
É tempo de entendermos que só com conhecimento aprofundado, solidariedade e coletividade, iremos conseguir conquistar o espaço de pertença que é nosso e reconhecermos a nossa identidade, subjetividade e importância diante dos novos quadros sociais.
Os nossos direitos não foram entregues a nós de maneira gratuita, não somos frágeis, não precisamos que nos deem o básico de garantia de dignidade humana, nós lutamos firmemente para isso.
Somos violentadas e brutalmente assassinadas nas trincheiras de combate, nas ruas, nos lares, nos ambientes de trabalho, nas escolas, mas ainda assim seguimos firmes na busca pela nossa emancipação. Não podemos nos acomodar, enquanto mulheres em várias partes do mundo sofrem todo tipo de violência, inclusive neste exato momento, em que eu escrevo este texto e em que você o lê.
Temos direito de garantir nossa própria existência, por meio de trabalhos que nos paguem e nos valorizem tanto quanto valorizam os homens, temos direito de ocuparmos espaços de poder e tomada de decisões, temos direito à vida, à liberdade e ao amor.
Que este dia seja um chamamento para que nós estejamos juntas em prol de dias melhores, de igualdade e da derrocada de todo autoritarismo, de todo silenciamento, apagamento e invisibilidade que descredibiliza as nossas potências.
Estamos vivas!!! E assim vamos permanecer, vivas e combatentes!
*Fernanda Protasio é Historiadora, especialista em Fundamentos Políticos da Educação, mestra em Memória, Linguagem e Sociedade, com ambas as formações pela Uesb, e escreve crônicas e poesias.