Entidades culturais questionam espaço destinado a artistas locais na Festa do Divino 2026 em Poções

Após o encerramento da Festa do Divino 2026, manifestações publicadas por grupos culturais de Poções no instagram, reacenderam o debate sobre o espaço destinado aos artistas locais na principal celebração cultural e religiosa do município
Por Raquel Rocha
Publicado em 11/06/2026

Considerada uma das festas mais tradicionais do sudoeste baiano, a Festa do Divino reúne, anualmente, milhares de pessoas em torno dos festejos religiosos, cortejos culturais e shows musicais que celebram o padroeiro de Poções. Ao longo dos anos, a programação principal passou a incluir artistas de projeção regional e nacional, enquanto músicos e grupos locais passaram a ocupar espaços alternativos da festa, como a Mostra Cultural.

Agora, em 2026, dias antes do início das festividades, artistas locais já sinalizavam falta de organização e planejamento da programação da Mostra Cultural, justamente o evento que dá destaque para esses artistas ao longo da festa. 

Com o encerramento da programação, a Filarmônica 26 de Junho tornou pública sua insatisfação após não participar da edição deste ano. Em publicação nas redes sociais, a instituição afirmou que ficou de fora da programação pela primeira vez em décadas.

“Por mais de duas décadas, o primeiro acorde da Festa do Divino não vinha de caixas de som eletrônicas, mas do sopro vibrante de músicos que carregam a história de Poções no peito. Era a nossa abertura oficial. Era a nossa alma nas ruas”, escreveu a filarmônica se referindo à sua apresentação de abertura no palco. 

Em outro trecho, a entidade questiona a decisão da organização do evento. “Pela primeira vez em décadas, a maior festa cultural e religiosa de Poções aconteceu sem que nossa Filarmônica recebesse sequer um convite da comissão organizadora. Fomos silenciados dentro da nossa própria casa”, afirma a nota.

A Filarmônica 26 de Junho também argumenta que a exclusão contraria o reconhecimento concedido pela Lei Municipal nº 1.477/2025, que a declarou Patrimônio Cultural e Imaterial de Poções. Fundada a partir da tradição musical iniciada pela antiga Filarmônica Primavera, a instituição é considerada uma das mais antigas expressões culturais em atividade no município.


Para o presidente da associação, Welinton Fagundes, a ausência da banda representa uma ruptura com uma tradição construída ao longo de décadas.

“A ausência da filarmônica representa mais que uma mudança na programação. É uma ruptura simbólica. A banda não tocava apenas música: ela anunciava que a festa havia começado e conectava gerações por meio da memória afetiva”, afirmou.

Segundo Fagundes, a exclusão da filarmônica afeta diretamente a preservação da memória cultural de Poções. Uma vez que a banda faz parte da identidade sonora da cidade e exerce um papel fundamental na transmissão de saberes e tradições para as novas gerações, especialmente por meio de sua participação nos festejos populares. 

Questionado sobre os possíveis motivos para a ausência da instituição na programação deste ano, o presidente afirmou não ter recebido qualquer explicação oficial. “Talvez haja uma tentativa de modernização da festa para atrair público jovem ou turista, mas quando se troca o tradicional corre-se o risco de descaracterizar os festejos. Vinte anos não são vinte dias. Quando a filarmônica não toca, não é só a música que some. É um pedaço da história da cidade que fica em silêncio”, declarou.

Em nota enviada ao Site Coreto, a Prefeitura de Poções e a organização da Festa do Divino afirmaram que a ausência da Filarmônica 26 de Junho ocorreu em razão de uma falha de comunicação.

Em relação à apresentação da Filarmônica 26 de Junho, o que ocorreu foi uma falha de comunicação, situação que lamentamos e que não reflete o respeito e a consideração que temos pela instituição e por sua importante contribuição à cultura do nosso município”, informou a organização.

A administração municipal também destacou que ampliou os espaços destinados aos artistas locais durante a edição de 2026. Segundo a nota, a Mostra Cultural passou de três para seis dias de programação e, somando as apresentações realizadas no palco principal, no palco alternativo e na Mostra Cultural, a festa contou com a participação de 40 artistas da terra.

Debate sobre a marginalização dos artistas locais na grade da festa

As críticas não se limitaram à ausência da filarmônica. A banda Afro’z Rep também publicou uma carta aberta questionando a forma como os artistas locais vêm sendo inseridos na programação do evento.

Embora a grade principal da Festa do Divino seja tradicionalmente composta por atrações de projeção nacional, o grupo acende o debate sobre como os espaços destinados aos artistas poçoenses ainda enfrentam problemas estruturais e organizacionais.“A Festa do Divino sempre foi uma vitrine para aqueles chamados ‘artistas da terra’”, afirma a publicação.

Embora a criação de espaços alternativos para apresentações locais representou um avanço, para o Afro’z Rep as condições oferecidas ainda escancaram a marginalização dos artistas da terra, em detrimento da grande estrutura e cachês destinados aos artistas de projeção nacional. 

“É necessário que saibamos observar atentamente a forma precarizada com que eles [os espaços alternativos] recorrentemente são oferecidos aos artistas da terra. Estruturas de palco de baixa qualidade, sonorização problemática, baixos valores pagos aos artistas e a desrespeitosa e completa desorganização da grade de apresentações”, diz o texto.

A manifestação também menciona a adoção de editais para seleção dos artistas locais nos últimos anos, considerada uma medida positiva para ampliar a transparência do processo, mas defende melhorias na execução da programação.

A discussão sobre a valorização dos artistas locais também envolve a forma como esses artistas foram apresentados ao público. Nos cartazes divulgados para os três dias de shows do palco principal da Festa do Divino 2026, a organização informou a participação de “artistas da terra” na programação. No entanto, os nomes desses artistas locais foram divulgados apenas nos lineups de cada dia, publicados, um dia ou até horas antes das apresentações. Além disso, a programação do Palco da Alegria, espaço destinado aos shows de artistas da terra, também não foi divulgada.

Cultura local e tradição

As manifestações ocorrem após uma edição da Festa do Divino marcada por uma extensa programação musical e cultural. No entanto, os posicionamentos publicados por entidades e artistas colocam em evidência uma discussão recorrente sobre o equilíbrio entre atrações de apelo comercial e a valorização das expressões culturais do próprio município.


Para representantes dos grupos que se manifestaram, a questão não envolve apenas participação artística, mas também o reconhecimento de patrimônios culturais que ajudaram a construir a identidade da festa ao longo das décadas.

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